Monday, March 2, 2009

Gaston Lenôtre: Adieu


No dia em que entrei no avião para um périplo Barcelona-Bordéus-Angoulême-St.Émilion li o seu obituário. Faleceu a 8 de Janeiro, provavelmente o maior pasteleiro vivo. Coincidência: o meu destino, St. Émilion, orgulhava-se de uma tradição monacal, os macarons, que os perversos de Paris, encabeçados por Mr Lenôtre, tinham transformado numa perversão chamada macaron gerbet que une pecaminosamente dois macarons numa lúbrica ganache de chocolate, compota ou algo ainda mais obsceno a que a imaginação se disponha.
Três fins-de-semana depois, e muitos mais pontos de cozedura testados, provo os macarons depois de 48h de frigorífico para aprimorarem os sabores. Macarons rosa com ganache de chocolate de leite e maracujá fresco, Macarons verdes com compota de framboesa. Que delicadeza, mas... À vous, Mr. Lenôtre!

Tuesday, February 3, 2009

Bordéus




Vir a Bordéus é realizar um sonho, entre os produtos da terra e do mar exemplares do Sudoeste e a omnipresença do vinho. Aqui fica um caderno de notas com sabores numa cidade maravilhosa, a visitar. Ponto de passagem obrigatório a livraria Mollat, na Rua Vital Carles, próximo da Place Gambetta e a melhor livraria do Mundo.
Cordeiro de Pauillac - Prepara-se com bastante alho mas com os dentes inteiros, sem este se imiscuir na delicadeza da carne. Uma das receitas opcionais é o cordeiro de 7 horas que evoca calma da espera e a baixa temperatura a garantir o suculento da carne. A épaule é a perna da frente e o gigot a de trás. Imbatível na suavidade da textura e na delicadeza do gosto. O único concorrente que conheço para o Cordero de Magallanes chileno que tem um gosto mais herbáceo e silvestre.
Manteiga Étiré - É uma manteiga da AOC (DOC) de Entre-Deux-Sèvres, doce, gostosa a pedir para ser posta nas tábuas de queijos para acompanhar bons vinhos.
Queijo Rocamadour (Cabra) - Uns queijos pequeninos, com uns 3 centímetros de diâmetro, cremoso, que acrescentam complexidade ao queijo de cabra nos seus perfumes campestres, com um final de boca forte de fungos.
Queijo Comté 24 meses (Vaca) - Confesso que achava os Conté um pouco aborrecidos e com um final adocicado e monótono. Os afinados com 24 meses são uma outra história e rivalizam com os queijos suiços de pasta dura no seu equilíbrio e gosto.
Ostras de Marenne - No mercado dos Capucins existe um vendedor de ostras e mais nada. Dois tipos, vários calibres, e um paladar único: um pouco salgadas, perfume de mar a pedir um branco muito seco onde as notas doces fazem um contraste divertido para o palato.
Foie-Gras Mi-Cuit - Pois, quando nas latinhas virem Canard du Sud-Ouest, já sabem que é aqui que os animais viveram. Não havendo necessidade de latas, cozinha-se o dito fígado e é apresentado no prato com uma boa camada de gordura deliciosa e nada enjoativa no meio de um prato aspergido com flor de sal e pimenta preta.
Magret de pato - O bife tirado do peito do pato, e que conserva a sua camada de gordura, é uma carne soberba, se deixado rosa. Acompanhado de uma redução com chalotas, vinagre balsâmico e um pouco de mel equilibra-se a secura da carne e o paladar forte da carne de boa criação, num repasto delicioso e substancial.

Nesta estadia passei a achar os restaurantes um mal necessário para quem quer conhecer vinho, e os seus rivais, que podiam ser os ou Bar à Vins muito pobres nas suas selecções à parte o CIVB (Conseil Interprofessionnel du Vin de Bordeaux) onde os vinhos são seleccionados por um enólogo e propostos a preços razoáveis e acompanhados de uma selecção gastronómica muito agradável. Cuidado com anos inferiores e vinhos banais.

Como nem só de comida-chique vive o homem, não gosto de deixar França sem ir a um marroquino, desta vez libanês, pedir uma salsicha merguez na grelha posta no pão apenas com uma mostarda daquelas que sobe ao nariz e carradas de harissa. A acompanhar um sumo tropical. Abaixo os gourmets!