Wednesday, December 10, 2008

Teorema da Baunilha (em memória do Alfredo Saramago)


Sempre que tenho ocasião de utilizar uma vagem de baunilha natural na minha receita favorita, páro uns segundos para a cheirar. Repito o processo várias vezes.
A complexidade do aroma entre o doce, o picante, a especiaria parece-me uma paisagem, um quadro modernista com os seus traços bem marcados. De cada vez que se olha, a luz varia.
Ao rachá-la ao meio e difundir as suas graínhas na nata penso que estou a cometer um sacrilégio. O Panna Cotta ruboriza-se perante a vulgaridade do aroma da nata, e esta submete-se pacientemente ao banho maria para num processo alquímico chegar à textura ideal. Sabemos que chegámos lá quando a língua pressionada com suavidade contra o céu da boca quase ignora os dentes.
A nata é o altar à baunilha, e a liturgia simples da culinária apenas espera que desça o espírito da baunilha ao palato.
Nesta acepção, o lugar da culinária e das suas técnicas é o de fazer aparecer e brilhar o simples.
Quando alguém come uma tarte de fruta e pergunta se esta foi ao forno sinto que estou no bom caminho. E que a cozinha de baixa temperatura das nossas avós e do Hervé This é a técnica mais importante que conheço na cozinha.
As mangas Haden, as peras Bartlett ou uma maçã Reinette, maduras e perfumadas, têm uma mensagem humilde: não nos incomodem.
A técnica culinária é o equivalente da câmara de filmar do realizador, um artefacto cuja acção se aperfeiçoa à medida que se dissolve, até desaparecer, e já ser só espectador e emoção colorida de vida.
O sublime é antes e o regresso impossível; mas tentar e falhar faz a técnica e o humano, esses simultâneos.

Este texto é dedicado ao Alfredo Saramago, que me ensinou a simplicidade com com o seu livro "Cozinha para Homens: A Honesta Volúpia", e aos seus legumes a fugir para a horta, . Seguiremos passeando contigo por Portobello, Paris, Alhambra e recantos inesperados de Itália.

Tuesday, December 2, 2008

Viaggio in Italia - Lazio, Roma - Budino di Ricotta / Pudim de Ricotta





Um ingrediente tão leve como o queijo Ricotta, parente do nosso Requeijão, só pode dar um pudim de uma grande leveza. A sêmola de trigo apresenta parentesco de textura com o aspecto farináceo do Ricotta.
Em opção à laranja cristalizada e à cidra cristalizada utilizámos raspa de laranja e umas passas de uva moscatel de Málaga, embebidas em rum, bem suculentas e plenas de sabor ao contrário das suas primas natalícias mais comuns.
Prove morno.

Viaggio in Italia - Lazio, Roma - Tiramisù





Receita reclamada várias por várias zonas de Itália, os romanos não fogem à regra.
Tiramisú significa apanha-me, mote de jogos infantis e tropelias.
Entrar na culinária italiana é mergulhar na simplicidade dos métodos e excelência nos ingredientes.
O mascarpone tem que ser de primeira, use café expresso ou de cafeteira moka e um bom cacau em pó.
Se for possível fugir aos Palitos à la Reine, fuja, pois de reais nada têm, pelo menos os testados até agora. Talvez tenhamos melhor sorte na vizinha Espanha, que tem uma enorme tradição de bolos secos de boa qualidade, mesmo os de fabrico industrial.
E porque não um pão de ló, fresco, feito num tabuleiro baixo, um pouco tostado, às tiras? Se quiser também pode fazer uma receita de boudoirs, o nome francês dos palitos.
Quanto aos licores, Amaretto di Saronno é o eleito, mas embeba só até metade os palitos para aumentar a variedade de texturas.